Thursday, May 25, 2006

Ética: próxima tendência do mundo da moda

Os conceitos de ética ainda não foram incorporados na rotina do jornalismo de moda, como são evidenciadas a cada folheada nas revistas. Os profissionais necessitam aprofundar essa questão, que tem como pano de fundo uma indústria de alta lucratividade, que gera mais de um milhão de empregos no país.

O Brasil passou, durante a década passada, por um processo (mesmo que incipiente) de profissionalização do mercado de moda local. Além de produzir malhas, tecidos, fiação e aviamentos em escala industrial, para atender tanto o mercado interno quanto externo, o país começou a produzir até mesmo uma “cultura de moda”, com a implantação das semanas de moda (como o Phytoervas e o Morumbi Fashion – atual São Paulo Fashion Week) para padronizar o lançamento das coleções e a sincronia da cadeia industrial.

Até os anos 90, o jornalismo de moda no Brasil era inexpressivo, as matérias sobre o tema eram publicadas nos cadernos femininos, quase sempre copiando texto e tendências estrangeiras. A partir da organização do mercado de moda nacional, o jornalismo também mudou: passou-se a falar mais da produção local, dividindo espaço com as criações internacionais. Hoje, por exemplo, o São Paulo Fashion Week causa, na imprensa brasileira, um “frisson” maior que a semana de moda de Paris, com publicações dedicadas ao tema lançadas em todas as temporadas.

Acompanhando o crescimento do mercado de moda – segundo pesquisa realizada pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e da Confecção (Abit) em 2005, a indústria têxtil gerou US$ 15,9 bilhões e 1,1 milhão de empregos só no ano retrasado -, houve uma profissionalização no jornalismo nessa área, até mesmo através da criação de cursos de pós-graduação. Apesar de centenas de jornalistas de moda entrarem para o mercado todos os anos, a discussão sobre ética nesse campo ainda é muito tímida. A imprensa especializada apresenta práticas que podem não estar de acordo com uma conduta ética.

As revistas especializadas são um dos veículos essenciais no jornalismo demoda. Preenchidas com imagens, cores e glamour, muitas vezes são a versão imprensa da fascinação exercida pelo mundo fashion. Quem paga todo esse luxo são os espaços dedicados à publicidade – que somam quase metade das páginas. Algumas vezes, os espaços publicitários e editoriais são tão semelhantes que o leitor fica confuso em distinguir a diferença. Um ensaio fotográfico pode tanto apontar uma tendência, sendo parte do conteúdo produzido pela redação da revista, quanto pode ser um anúncio de uma marca. Na revista Vogue, em quase todas as edições, os ensaios fotográficos publicitários ganham apenas um pequeno chapéu – Promovogue – que os diferencia das demais produções da revista. No caso da Vogue 332, quem “ganha” esse espaço é a multimarca de luxo paulistana Clube Chocolate, mostrando peças da marca Adriana Barra, um dos carros-chefe da casa.

Esse forte relacionamento entre publicidade e espaço editorial também se revela presente nas publicações dedicadas ao publico mais alternativo como a revista Simples. A diferença, entretanto, é que o espaço pago é preenchido por matérias assinadas. Há 13 edições a Motorola insere sua “Motomag” nas últimas paginas da revista, assim como recentemente o Senac São Paulo insere um caderno produzido pelos alunos na Revista Simples. O caderno da Motorola, por exemplo, trata de comportamento, música e também de moda, e não de tecnologia de celulares, como seria o esperado.

Inicia-se então uma, das séries de questionamentos que não estenderá nesse texto, sobre a Ética no jornalismo de moda. O fato de uma grande empresa patrocinar uma publicação não faz com que ela seja imparcial em relação a quem financia a revista? Embora no conteúdo editorial não haja nenhuma menção à Motorola e à Clube Chocolate, o leitor tem direito de duvidar da integridade ética das revistas quando publicam uma matéria sobre tais empresas. Além do mais, o jornalismo de moda lida diretamente com o consumo, visto que seu enfoque é esse império do efêmero, que produz bens tangíveis e altamente vendáveis.

Por outro lado, serve ao mesmo tempo de guia estético ao consumidor, confuso com tantos lançamentos e tendências. O trabalho do jornalista de moda deve ser, portanto, o de separar, baseado no seu julgamento estético (no qual os leitores supostamente devem confiar) as informações mostrando quais peças e marcas podem ser encaixadas dentro do estilo do consumidor, sem dedicar-se à simples propaganda, e sim a inserir a moda no contexto no qual ela é criada. Interpretar e indicar corretamente, à parte de qualquer pressão financeira, é o delicado papel do jornalista de moda e dessa maneira ele pode desenvolver um trabalho onde a ética não é uma simples palavra, mas um sentido que guie seu próprio julgamento.



*Artigo que produzi para o ComTexto.