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Sábado, 16h. O clima ainda está muito quente apesar de ser alguns dias antes da entrada do outono – um termômetro registra 35ºC. Talvez ali, entre a Rodoviária de Londrina e o Estádio de Futebol Vitorino Gonçalves Dias esteja um pouquinho mais quente. Entre esses dois símbolos da cidade, nos fundos do muro do estádio se encontra uma fachada azul e branca – nas cores do Londrina Esporte Clube - com alguns rebocos aparentes, mas que dá para ler somente “boxe”. É naquele local que ocorre o treinamento com luvas aos sábados...
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O boxe é uma arte marcial onde dois adversários usam apenas os punhos para atacar e se defender. São permitidos apenas golpes acima da linha da cintura, e quando um adversário ameaça ir à lona, o juiz interrompe a luta e conta até dez. Se ao fim da contagem o lutador ainda não estiver recuperado, o juiz declara nocaute e dá a vitória aquele que permaneceu em pé.
O boxe produziu inúmeros ídolos, nacionais e internacionais, como Muhammad Ali, Mike Tyson, Maguilla e Éder Jofre. Outra seara onde brilham os pugilistas é na tela de cinema, com clássicos como “Touro Indomável” e a série “Rocky”.
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Foi durante o serviço militar na Marinha que Miguel de Oliveira conheceu o esporte (quanto tempo, ele prefere não revelar)... Desde aí, não ficou longe do esporte. “Comecei a trabalhar como auxiliar de treinador em 75 e, um tempo depois já virei treinador”, conta. Hoje, ele é o responsável em preparar os quase 150 alunos da academia, ofício que exerce com muita satisfação. É com o mesmo entusiasmo em que afirma que o esporte é um dos mais democráticos que ele conhece: “já treinei de pedreiro a juiz de Direito. Aqui dentro é tudo mundo igual”.
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“Eu fazia kickboxing e tive que reaprender muita coisa para lutar boxe. Enquanto as outras artes marciais deixam alguns ‘vícios’, o boxe é uma luta clássica.” Eduardo Ósti tem 23 anos e é formado em Educação Física . Depois de quatro meses treinando, esta ali para estrear nos ringues: “Pretendo ser profissional. Boxe sempre foi uma paixão, e agora estou podendo realizar meu sonho”.
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“Sabe o que todo praticante de boxe precisa ter? Os cinco ‘S’...”, aconselha Miguel. Como um macete para decorar no vestibular, o treinador vai enumerando. A saúde, que é a principal; sabedoria para elaborar as táticas; saco para não poder desistir na primeira queda; soco que deve ser forte e direto e é claro, sorte. “Chama o chefe que ele é um exemplo do que eu estou falando”, diz para um aluno que está ao lado.
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Ao lado do filho de três anos com luvas nas mãos, está o veterano Edílson Pereira. Carinhosamente apelidado de “chefe” pelos companheiros, é um dos pugilistas que freqüenta a academia há mais tempo. Começou aos 18 anos e logo participou de campeonatos, levando alguns prêmios. Hoje, vive do esporte, lutando, dando aulas na academia e, agora, animado com a perspectiva de receber uma bolsa-atleta do Ministério dos Esportes. Apesar disso, se ressente com a falta de divulgação do boxe: “A imprensa deveria dar mais espaço para o esporte”.
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Os registros mais antigos de lutadores que utilizavam apenas os punhos variam de 4.000 a.C., no Norte da África, a 1.500 a.C., na região do Mediterrâneo. Lutas com os punhos desprotegidos foram muito populares na Inglaterra a partir do final do século XVII, de onde surgiu o termo boxe, derivado do inglês to box, atingir um oponente. Foi em 1867 que o esporte passou a ter regras claras, com a adoção das regras do Marquês de Queensberry. Hoje o boxe é dividido em duas categorias: amador e profissional. O boxe amador é também a categoria olímpica de boxe, onde os participantes lutam com protetores de cabeça e em menos rounds, enquanto o boxe profissional está ligado ao espetáculo, com lutas realizadas rotineiramente em cidades como Las Vegas.
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O ringue não é lugar só para homens. Algumas entram pelo condicionamento físico. Angélica Cristiane do Nascimento, 32 anos conta que o boxe é ótimo para a auto-estima feminina “pois proporciona resistência, auto defesa e agilidade”.
Outras acabam se envolvendo com o boxe. Foi o que aconteceu com Ana Lucia da Silva, 19 anos. “Eu sempre pratiquei esportes, mas vim à academia mais por indicação dos amigos”, conta. Com pouco tempo de treino, acabou gostando e hoje pensa em lutar em campeonatos. Nas “coletivas” ela luta com homens “mas nunca tive medo não”.
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Os “pugilistas” se preparam para lutar com o aquecimento. Angélica faz uma roda para o pessoal alongar. “Segurem a cabeça para frente. Um, dois, três” comanda. Devidamente esticados, alguns vão pular corda, outros no saco de treino, que pesa entre quarenta e cinqüenta quilos, para defesa e ataque. Ele é feito de couro e recheado de serragem. A pushing ball, aquela menorzinha, ajuda na coordenação motora e a pêra-loca nos movimentos com as pernas, melhorando a esquiva.
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“Hoje tem luvas novas!” diz Miguel apontando para uma caixa de papelão cheia de pares de luvas com as cores do esporte - brancas/azuis e brancas/vermelhas – ainda no saco plástico. Começa o ritual de colocar os aparatos obrigatórios: protetor bucal, protetor para a cabeça, coquilha para os homens, protetor de seio para as mulheres e por último as luvas.

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É hora de “trocar as luvas”. Dois lutadores sobem ao ringue. “Bóóóóóóxe”, grita o árbitro indicando que podem começar a luta. Ele se afasta e os dois boxeadores partem para trocar os golpes. No início lutam os “alunos” de nível iniciante ou os chamados, na gíria “durona” do boxe, ”cabaços”, aqueles que nunca trocaram golpes com o adversário. Cruzado na cara de um, afasta, direto no rosto de outro. De repente o árbitro grita “Brrrrreeeeak!”, os lutadores param e o “mediador” pergunta ao que foi acertado no nariz se ele está bem.
Tudo OK e alguns conselhos de Miguel -“Vamos lá, Brutus. Vamos lá Pit Bull, cadê a agilidade? ‘Tá’ muito medroso hoje, hein...”.
“Bóóóóóóxe” e eles recontinuam a luta. “Quando eles estão começando os golpes são mais de defesa”, conta o treinador com o mesmo ânimo de um professor ao ver o aluno escrever, mesmo que cometendo sérios erros ortográficos. A adrenalina dos lutadores cresce e a “partida” começa a esquentar. Se antes eram apenas contra a cabeça, agora começam na região toráxica. É nessa hora que se ouve quase que uma música cheia das vozes do boxe...
Um “Stóóóóp” finaliza a luta que não é seguida a rigor do relógio branco e azul que contabiliza o tempo dos rounds oficial.
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Um dos lutadores torce o pé. “É a primeira vez que me acontece isso, e é a primeira vez que vejo alguém torcer o pé em cinco meses que eu treino aqui” diz já com um saco de gela em cima do pé já despido do tênis.
Ao contrário do que muitos pensam, o boxe não é um esporte violento. “Acho que a adrenalina é tão mais forte quando a gente ta lá em cima, lutando que nem dói quando o adversário nos acerta” conta Ana massageando o nariz depois da luta.
Segundo o treinador Miguel, é lenda o que “os leigos” falam sobre o “ossinho do nariz”. “Não, eles não tiram nada do nariz. Pode perguntar pra qualquer um deles aqui hoje. E os que têm o nariz quebrado, com certeza não foi pelo boxe”, afirma desmistificando o que se ouve por aí...
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Quase 19h. Sob uma chuva torrencial lá fora, e algumas goteiras dentro da “academia”, é a vez dos mais experientes. É a hora de Valdecir Martins, que já conquistou vários campeonatos paranaenses, Edílson e outros. Agora as lutas não devem nada às que passam na TV.
Miguel, no corner do ringue, exibe um sorriso de satisfação, mesmo quando quase é acertado no rosto por um dos lutadores.
*Crédito fotografias: Silvio Machado/ Texto publicado "Na Integra" edição 11